16.1.09

Aos negócios

Não faço blip nenhuma no estágio, mas sou impedido de acessar o Blogger. Então façam meu tempo lá valer a pena e entrem loucamente no seguinte site, o qual sou responsável doravante.

http://www.fiocruz.br/OMCC

BEIJOS

(eu sei que este deveria ser publicado no
Twitter, mas o Twitter eu posso acessar de lá)

14.1.09

Me lembrei do sonho

Me lembrei mais ou menos com foi o sonho que tive com a Rafinha. Estive lendo um trabalho que fiz para faculdade (para a disciplina Geografia Humana e Econômica), e me ocorreu que ele tem algo a ver com a gente viver num mundo onde as "ciências" positivistas são levadas realmente a sério e ela ser uma pica grossa no Ministério da Educação. Então tinha todo aquele drama do "oh, céus! Como você pode executar essas ações sem questionar essas crianças! Como você pode remexer no futuro da nação se baseando apenas nos seus velhos barbudos?!". Ou não, tô inventando sem querer, não sei!

Essas férias estão fazendo mais mal ainda para minha memória. Amanhã mesmo eu volto a tomar Ginkgo Biloba. Segue aí o tal trabalho:

Primeiras palavras

Como a mim não é claro o objetivo deste trabalho, uma vez que ele foi tratado com o epíteto de “artigo” – o qual sugere uma pequena produção “científica” –, ao mesmo tempo em que foi nele requisitado um relato pessoal sobre a experiência adquirida no decorrer do curso, proponho construí-lo da seguinte maneira:

Neste, com efeito, relato minha experiência com o curso como um todo: textos, discussões, aprendizado, e o mais. Contrasto estes com minhas expectativas prévias e posteriores, com a ementa padrão da disciplina e ainda com aquela apresentada pela professora. Sendo minha experiência, não hesito em empregar juízos de valores e declarações essencialmente pessoais, as quais não são, de fato, parâmetros de princípios avaliativos academicamente quaisquer. Inevitavelmente, durante esta construção, aludo a algumas idéias de autores contemplados pelo programa da disciplina; mas, mesmo arriscando-me em descumprir a exigência “científica” do suposto artigo (cuja proposta, como mencionei, não ficou muito clara), isento-me de explicá-las ou interpretá-las, pois tais idéias já foram trabalhadas “cientificamente” nas avaliações anteriores.



Questões bibliográficas

A ementa da disciplina é, em seu todo, evidentemente de orientação marxista. O que, adianto, considero um problema; e isso vai além das minhas divergências com tal ideologia.

Considero batida e frágil qualquer argumentação que preconize a neutralidade axiológica do discurso docente. Acredito que a ideologia precede o discurso e qualquer tentativa de eliminá-la não faz mais que reproduzi-la em disfarce ou de maneira subliminar. Portanto, não penso que qualquer professor ou professora deva representar em sala de aula, contradizendo suas próprias convicções. Discordo ainda que o exercício docente, ou acadêmico como um todo, pressuponha a exigência de um monótono silêncio diante das posições ideológicas. Em suma, não vejo problemas no fato de que docentes ostentem suas posições políticas particulares em sala de aula, desde que, ao mesmo tempo, honrem quatro premissas fundamentais: a aceitação respeitosa da reciprocidade por parte dos alunos, alguma moderação (bastada pelo bom senso), o não-desvio constante das discussões centrais, e – dos itens, o único ausente nas aulas da disciplina em questão – a contemplação de múltiplas abordagens (se existirem).

Os textos abordados na disciplina condizem tanto com a proposta do programa de curso apresentado pela professora, quanto com a ementa padronizada do curso disponível no website “UnB – Matrícula Web”. Não se pode alegar, portanto, que houve alguma espécie de “negligência” ou “fuga ao tema” por parte da docente. Também não poderia depreciar a ementa padrão, pois desconheço a produção acadêmica da Geografia Humana e Econômica como um todo. Se por um lado acredito que outras abordagens de orientação não necessariamente marxista deveriam ser contempladas no curso, por outro não posso oferecer quaisquer exemplos (que, aliás, nem sei se existem). Mas, enfim, sugiro que a ementa seja revista nesse sentido.


Questões ideológicas

Espero que esteja claro que esta não é uma observação com motivações majoritariamente políticas. Não estou reclamando o “direito a uma voz calada”, mas uma gama de ferramentas mais plurais para a discussão. Enfatizo, ainda, que não é meramente por antipatizar com a ideologia do materialismo histórico que faço esta crítica.

Mas de fato esta antipatia existe (ainda que imatura e de bases frágeis, no sentido de que minhas leituras, tanto das obras marxistas e de orientação marxista, quanto das obras as quais as criticam são ainda muito escassas e insuficientes) e creio que de alguma forma ela afetou o meu envolvimento com o curso. Certamente não de forma gratuita. Não estou certo de que isto cabe na proposta deste trabalho, mas acho interessante apresentar em que pontos divirjo da ideologia que orientou centralmente a bibliografia do curso usando um dos textos dela. Escolho um trecho de Ana Fani Alessandri Carlos (2001).

O ano novo em Times Square, Nova York, é o exemplo mais claro do poder da mídia em fabricar representações; mas aqui ela vai mais longe, pois consegue vender “o nada”. Por volta das 10 horas do dia 31 de dezembro, a massa de quase um milhão de pessoas começa a se acotovelar nas avenidas Sétima e Oitava – em áreas pré-determinadas pela política de Nova York [...]. Nesta praça apertada e de tamanho insignificante, há uma bola e um locutor que vai anunciando os minutos que faltam para o ano novo. O interessante é que não se vê absolutamente nada: a multidão e o espaço exíguo não permitem. Também não há muito o que ver, é só saber que se está num lugar em que a mídia define como “o lugar” para se estar na noite do dia 31 de dezembro em Nova York. A multidão, massa disforme de corpos, se aglomera nas duas avenidas, voltadas para a direção de Times Square, quase sem se olhar. Aqui parece não haver prazer, nem desejo, mas apenas a expectativa passiva da chegada da meia-noite.

À Meia noite, então, o que acontece? O locutor faz a contagem regressiva, uma bola branca é solta no ar, mas poucos podem ouvir e ver. A massa acotovelada nas avenidas grita por um ou dos minutos “happy new year!”, e depois se dispersa ruidosamente; será que satisfeita? Só uma poderosa mídia consegue mobilizar tanta gente para “o nada” Aqui se trata indiscutivelmente de mais um espetáculo que representa a não-comunicação em meio à massa de pessoas que se aglomera, olhando para um ponto distante à sua frente onde está Times Square, como se faz uma “Meca (temporária) moderna” que atrai olhares e expectativas que não se realizam. (p. 69)

Nesta explanação medíocre, a autora parece acreditar piamente que está em uma posição superior à de seus “nativos[1]”, os quais, infelizes, ignoram sua realidade. Porém ela, detentora do saber maior, pode interpretar suas vontades, desejos, expectativas e “porquês”. Conseqüentemente, pode apontar-lhes o caminho da felicidade – pois a humanidade está há milênios na Terra sem saber resposta alguma sobre sua realidade, esperando que estas venham dos “cientistas”. O grande problema do materialismo histórico é que essa ideologia fornece a seus “adeptos” uma “caixinha de ferramentas” contendo todos os conceitos, termos e iguais[2] necessários para fazer de qualquer esboço ou interpretação da realidade algo profundo, inteligente, “científico”, benevolente e politicamente correto. Mas a citação demonstra uma interpretação vulgar da humanidade, a qual se assemelha ao julgamento de pessoas portadoras de necessidades especiais mentais ao cometer um crime: ao mesmo tempo em que há culpa em seu ato, são inocentadas porque há algo além de suas capacidades que as motiva para tanto. Na verdade, tal interpretação de uma humanidade mesquinha – cujas ações são ignoradas pela própria, embora sejam certamente movidas pela sua insaciável fome de consumo material – é um especulacionismo barato e atroz, elaborado por uma pessoa que despreza a realidade empírica em primazia de suas crenças, se julga capaz de afirmar o que os outros querem e sentem sem questioná-los, mas não conhece mais do que nenhuma dessas pessoas seus desejos e motivações. Enfim, se ainda cabe mais alguma opinião, o que avalio desta maneira não é o pensamento marxista em si, mas o repertório de teorizações infelizes que se sustentam dele.



Problemas epistemológicos

Não é minha intenção insistir no assunto, mas é inevitável. O “desapego” das proposições de orientação marxista à realidade empírica me incomoda. O corpo de esboços teóricos do materialismo histórico é per si estrutural. A realidade é explicada por suas entrelinhas, estruturas invisíveis que só os “cientistas” podem compreender. Com efeito, execro esse tipo de interpretação “mística” da vida social, o qual é uma fonte inesgotável aos que querem se fazer profundos. Nenhuma disciplina que tente explicar uma realidade da vida social humana pode intitular-se legitimamente como ciência. A ciência exige uma linguagem exotérica, verdades isentas de opiniões (de fato axiologicamente neutras), a exaustiva repetição dos experimentos laboratoriais e sua conseqüente, ainda que falha, capacidade preditiva. A volúvel constelação das ações dos seres humanos, em seu ritmo vertiginoso, torna impossível qualquer tentativa da construção de uma ciência sólida que se proponha a explicá-la. Não há corte epistemológico entre o pensamento do “cientista” social e de um sábio, bom observador do mundo. Não é à toa que as teorias dos grandes filósofos gregos do passado a respeito da natureza hoje se conservam apenas enquanto relíquias que são da história do pensamento ocidental, mas sem oferecerem nenhum conhecimento útil. Já a boa literatura a respeito da condição humana é exaustivamente relida e contemplada, dada a atualidade e profundidade de sua sabedoria, não importando quão antiga seja.

Não precisamos esperar o positivismo e suas pretensiosa criações para sabermos algo a mais sobre nossa realidade social. Sua vantagem, talvez, tenha sido permitir novas reflexões, mas seu legado não é útil. Agora que a maioria de suas “crias” com ele rompeu[3], deveriam também abandonar seu fetiche por esse cientificismo ilusório e imitar os cientistas apenas na maneira ingênua com que enxergam a realidade. Não é um defeito.


Um balanço favorável, ou "por favor, não me dê um injusto MS"

Apesar dos pesares, ainda não cheguei àquela “fase” (se é que algum dia eu a atinja) em que muitos descartam tudo o que desagrada suas convicções. A experiência com o que discordamos pode ser muito interessante e freqüentemente me deparo com proposições inteligentíssimas e mesmo inspiradoras, ainda que destoem do meu pensamento.

De maneira alguma considero a experiência da disciplina negativa. Aliás, o trabalho da professora foi elogiável. Apesar dos problemas que tivemos com o período inicial sem docência, a continuidade da disciplina fez-se democrática, porém não dispersa, mas sólida; embora com uma carga de textos semanal extensa demais, o que tornou inviável sua leitura na íntegra. Apesar de todas as considerações feitas anteriormente, seria absurdo afirmar que todas as leituras e discussões prestigiadas foram rejeitáveis. O contrário!

Interesso-me pelo estudo dos espaços urbanos e suas relações, digamos, metafísicas com o ambiente. Certamente, a minha proposta de estudo não se resume e inclusive busca divergir da interpretação predominantemente contemplada pelo programa do curso, aquela que privilegia “o recorte na análise e a compreensão da realização do espaço como mercadoria no contexto amplo da categoria espacial, enquanto conjunto de relações e formas no tempo da realidade social”[4]. Mas, enfim, muitos conceitos como a representação do espaço como simulacro, trazida por Carlos (2001); a importância dos elementos geográficos na construção do imaginário nacionalista do brasileiro, trazida por Neto (2000); a fluidez e a organização do espaço em rede e sua transição histórica para a atual conjuntura, trazida por Moreira (2006); e mesmo as novas formas de se pensar o espaço e seu possível reflexo em ações políticas que venha a contemplá-las, trazidas por Souza (2006) e Santos (1997; 2003) produziram reflexões mais ou menos enriquecedoras e mesmo de utilidade prática na execução dos meus futuros projetos de pesquisa.

Quando me matriculei na disciplina não fazia idéia de que ela me ofereceria uma um conteúdo tão relevante para a “minha” maneira de pesquisar o espaço, ainda que diferente (e conhecer o diferente, mesmo que do ponto de vista meramente acadêmico, é importante). A partir dela conto com uma tropa de conhecimentos a minha disposição, além, é claro de um refinado conhecimento em normas da ABNT.


Notas de rodapé

[1] Expressão recorrente na Antropologia, usada para referir ao ator o qual é o objeto do estudo.
[2] Me refiro aqui a pessoas que pensam de forma semelhante, seguem a mesma ideologia.
[3] Acho conveniente mencionar minha crença no fato de que tal rompimento tenha se dado em parte por questões políticas, uma vez que, em seu início, as “ciências” positivistas se empenhavam em servir às elites, ao passo que posteriormente suas cadeiras foram ocupadas por pessoas de orientação política divergentes a tais propostas. No entanto, os créditos atribuídos ao rótulo “ciência” permaneceram desejados, e a pretensão de se fazer uma ciência que estudasse a vida social humana por meio do esforço de um método científico permaneceu; desta vez, construída por “meditações filosóficas”, cuja prerrogativa é dada por um diploma e sustentada por um departamento na Universidade.
[4] Trecho retirado da ementa da disciplina proposta pela professora.


Referências bibliográficas

CARLOS, Ana Fani Alessandri. “Novas contradições do espaço”. In: O espaço no fim do século: a nova raridade. DAMIANI, A. L.; CARLOS, A. F. A.; SEABRA, O. C. L. (orgs.). São Paulo: Contexto, 2001. pp. 62-74.

MOREIRA, Ruy. “Da região à rede e ao lugar: a nova realidade e o novo olhar geográfico sobre o mundo.” In:______. Para onde vai o pensamento geográfico? Por uma epistemologia crítica. São Paulo: Editora Contexto, 2006. pp. 157-177.

NETO, Manoel Fernandes de. “A ciência geográfica e a construção do Brasil.” In: Revista Terra Livre - Geografia, política e cidadania. São Paulo: AGB, 2000, n. 15. pp. 09-20.

SANTOS, Milton. “Uma revisão da teoria dos lugares centrais.” In: ______. Economia espacial: críticas e alternativas. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 2003. 125-136.

SANTOS, Milton. "Uma palavrinha a mais sobre a natureza e o conceito de espaço". In: ______. Espaço e método. 4ª ed. São Paulo: Nobel, 1997. pp. 01-59.

SOUZA, Maria Adélia Aparecida de. “Recompondo a história da região metropolitana: processo, teoria e ação. In: SILVA, C. A.; FREIRE, D. G.; OLIVEIRA, F. J. G. Metrópole: governo, sociedade e território. Rio de Janeiro: D&A; Faperj, 2006. Pp. 27-40.

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA. Ementa/Programa da Disciplina: 138282 - GEOGRAFIA HUMANA E ECONOMICA. Disponível em: <http://www.matriculaweb.unb.br/matriculaweb/graduacao/disciplina.aspx?cod=138282>. Acessado em 05 nov 2008.


Nilton Aguilar

Novembro de 2008